Mais de 100 cruzes foram colocadas em frente ao Hospital da Criança Dr. Odorico Amaral de Matos, em São Luís, na manhã desta quinta-feira (16). O protesto, organizado por conselheiros tutelares e familiares, cobrou respostas sobre mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas e denúncias de possíveis falhas no atendimento.
O número faz referência à quantidade de crianças que, segundo denúncias enviadas aos órgãos de fiscalização, morreram nas três UTIs pediátricas do hospital em 2025. As denúncias afirmam que 113 crianças morreram na unidade naquele ano e que 101 desses óbitos ocorreram nas UTIs.
O Ministério Público do Maranhão (MPMA), o Ministério Público Federal (MPF), a Defensoria Pública do Estado do Maranhão, o Ministério da Saúde e a Polícia Civil investigam diferentes aspectos do caso.
As suspeitas aumentaram após uma mudança na gestão das UTIs. Em outubro de 2025, o Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) assumiu o serviço por meio de um contrato com a Prefeitura de São Luís.
Profissionais, familiares e a Defensoria Pública afirmam que a contratação teria reduzido o número de médicos nos plantões e permitido a atuação de profissionais sem a especialização necessária para o atendimento pediátrico.
O IBMED e a Prefeitura negam irregularidades. Segundo eles, as equipes cumprem as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Veja mais abaixo o que dizem as autoridades.
Protesto ocorre após auditorias
O protesto ocorre dois dias após uma auditoria emergencial do Ministério da Saúde e um dia depois de uma inspeção da Defensoria Pública no Hospital da Criança. Na vistoria realizada na quarta-feira (15), os defensores disseram ter encontrado uma médica sem especialização em pediatria e uma quantidade de profissionais considerada insuficiente.
A equipe também ouviu familiares que relataram demora no atendimento e falta de medicamentos. As constatações são preliminares e serão detalhadas em um relatório enviado à Secretaria Municipal de Saúde e à direção do hospital.
A inspeção da Defensoria durou pouco mais de três horas e contou com representantes dos núcleos de Defesa da Saúde e da Criança e do Adolescente. A equipe analisou as escalas médicas, a disponibilidade de medicamentos e materiais e as condições de atendimento às crianças internadas.
O defensor público Davi Veras afirmou que a situação encontrada reforçou preocupações apresentadas antes da contratação do IBMED.
"Ficou claro algumas questões. Primeiro, parte da equipe não é especialista. Nós identificamos uma médica que não era pediatra. A quantidade de médicos, para os padrões das regulamentações, é insuficiente, não atende à demanda e isso, claro, vai comprometer de alguma forma a assistência", disse o defensor.
A Defensoria ainda deverá verificar a formação, o registro profissional e a função exercida pelos trabalhadores citados antes de concluir se houve descumprimento das exigências técnicas.
A instituição também investiga uma possível subnotificação de casos. Segundo Davi Veras, a análise de prontuários e documentos da unidade será necessária para verificar se todos os casos foram registrados corretamente.
O defensor também investiga possíveis falhas na assistência, como erros na administração de medicamentos e atendimento por profissionais sem especialização em pediatria. Os casos ainda precisam ser confirmados por meio de análises técnicas e depoimentos das famílias.